quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Assis Valente e o Natal dos Excluidos

  • Assis Valente é um dos bons compositores brasileiros que ficou conhecido como alguem que criou um ambiente musical no qual fluía a poesia do homem comum com amor ao Brasil e, simultaneamente, como ironia do lugar do povo na brasilidade. Uma de suas composições mais conhecida é "Brasil Pandeiro", nela Assis faz um samba inquietante que na letra, quer ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar.

Mas Assis Valente não era só Samba e Carnaval. Dentre suas diversas composições uma ouvimos principalmente durante o periodo natalino. Quem ainda não ouviu ao menos este trecho, cantado ou em versão instrumental:

Anoiteceu
O sino gemeu
A gente ficou
Feliz a rezar.

Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
Pra você me dar


Chama-se “Boas Festas”. O autor da música que acalenta os sonhos, as tristezas e as ostentações do Natal só conseguiu morrer na terceira tentativa de suicídio, ao ingerir formicida com guaraná num banco da Praia do Russell, na Glória, em 10 de março de 58. Tinha aproximadamente 46 anos. (Não há certeza sobre sua data de nascimento.) Já tentara jogar-se do Corcovado, sendo resgatado pelos bombeiros preso aos galhos das árvores, e cortar os pulsos com lâmina de barbear.

  • O mulato Assis Valente nasceu na Bahia e, em 1927, veio para o Rio, começou a compor sambas que fizeram muito sucesso sobretudo na voz de Carmem Miranda, sua principal intérprete. Pertenceu à geração de compositores urbanos que num país culturalmente múltiplo associou o samba à brasilidade malandra, boêmia e moleque.

O que parecia ser a recompensa pela infância e adolescência trágicas na verdade camuflava um homem amargurado. Aos seis anos foi arrancado dos pais e da pobreza. Foi entregue a outra família que, ao se mudar para o Rio, abandonou-o na Bahia.

Passou a viver num hospital como lavador de frascos de farmácia. As necessidades da vida fizeram-no múltiplo. Trabalhou num circo como orador e comediante. Em Salvador conseguiu estudar desenho no Liceu de Artes e Ofícios e formar-se protético, profissão que continuou a exercer paralelamente ao ofício de compositor.

  • Muitas foram as tentativas de explicar sua personalidade suicida. Ingratidões e incertezas do ofício de compositor, problemas financeiros e até homossexualismo reprimido. Um dia em sua vida talvez seja mais revelador.

Assis Valente passou sozinho e triste, em Niterói, o carnaval de 32. Em seu quarto havia a gravura de uma menina de pé, entristecida, os sapatinhos sobre a cama, esperando o presente. Inspirou-se nela para compor “Boas Festas”. A segunda parte da letra merece leitura atenta:

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem!
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem!

  • Cobertos por uma melodia alegre que se assemelha por vezes às marchinhas, por vezes aos sambas de carnaval, os versos, fortes, escondem que nem todo mundo é filho de Papai Noel. Todo mundo pode ser filho de Cristo, a verdadeira razão do Natal, mas o que interessa é o Papai Noel e seu saco de presentes. Quem não pode recebê-lo, e no Brasil são muitos, aprende muito cedo que o Bom Velhinho só o é para alguns.

Mas a crítica ao consumismo do Natal é o aspecto mais fácil de perceber. O Papai Noel de “Boas Festas” representa a felicidade que não vem. É a felicidade dos presentes, mas se pode ver na última estrofe, nas duas referências a essa palavra, a alma ferida de Assis, sem felicidade — o presente, que ele não tem nem nunca teve, pedido em vão a Papai Noel.

“Boas Festas” transformou os tormentos de Assis Valente numa celebração. Entre desejos de feliz Natal e fartas ceias, poucos prestam a atenção à mensagem da música. Numa biografia em que o sucesso realça os infortúnios, e vice-versa, talvez seja esta sua maior tragédia.

  • Assis Valente faria 100 anos no próximo 2011. Pelo menos, em três décadas, as de 1930, 40 e 50, o Brasil cantou os sambas de Assis Valente, muitos deles na voz de sua principal intérprete, Carmen Miranda, a qual gravou Good bye, boy e no ano seguinte, Uva de caminhão.

A obra de Assis Valente soma 150 composições. Há clássicos como “Camisa listada” (“Vesti minha camisa listada e saí por aí...”). Ou “Brasil pandeiro”:

  • Brasil,
    Esquentai vossos pandeiros
    Iluminai os terreiros
    Que nós queremos sambar
FELIZ NATAL PARA TODOS!!!

4 comentários:

  1. Que história relato histórico sensacional! Parabéns.

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  2. Que história relato histórico sensacional! Parabéns.

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  3. Muito bom! Quantas músicas incríveis que cantei a vida inteira e não sabia que eram do Assis Valente... É que história cinematográfica a desse homem!

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